Do Revit à IA: o que quase 20 anos de BIM me ensinaram




Em 2007 conheci o Revit.

Na época, eu trabalhava em uma revenda Autodesk e fui para São Paulo fazer um curso daquele software que começava a aparecer por aqui.

Lembro de voltar com uma certeza:

aquilo não era AutoCAD.

Não era simplesmente aprender novos comandos ou trocar uma ferramenta por outra.

Tinha alguma coisa diferente acontecendo ali.

E acho que foi assim que começou a minha história com BIM.

...

Vieram os cursos.

Os treinamentos.

Em 2009, a Autodesk University em Las Vegas.

A certificação em Revit Architecture.

Os primeiros trabalhos de implementação.

E uma vontade enorme de entender como aquela tecnologia poderia mudar a forma como desenvolvíamos projetos.

Naquele momento, boa parte da conversa era sobre software.

Como modelar.

Como criar famílias.

Como configurar vistas.

Como extrair documentação.

Como fazer no Revit aquilo que estávamos acostumados a fazer de outra maneira.

Eu também estava muito focada nisso.

Só que, quando começamos a colocar BIM dentro dos escritórios de verdade, outra coisa começou a aparecer.


Saber Revit não resolvia tudo.

Você podia ensinar uma equipe inteira a modelar.

Mas...

Qual família cada pessoa deveria usar?

Como os arquivos deveriam ser organizados?

Quais parâmetros deveriam ser preenchidos?

Como nomear vistas?

Como estruturar o Project Browser?

Que informação precisava existir em cada etapa?

Como garantir que duas pessoas diferentes produzissem seguindo o mesmo padrão?

Como revisar?

Como entregar?

Como transformar conhecimento individual em processo da empresa?

Foi aí que comecei a entender que o desafio era muito maior do que ensinar Revit.


E a Construtora Virtual foi crescendo junto com essa percepção.

Ao longo desses anos, trabalhamos com escritórios de diferentes tamanhos, equipes, projetos e níveis de maturidade.

E cada implementação trazia um problema novo.

No início, muitas vezes a pergunta era:

“Como fazemos isso no Revit?”

Depois ela começou a mudar:

“Como deveríamos fazer isso?”

Parece uma diferença pequena.

Para mim, é enorme.

Porque a primeira pergunta é sobre ferramenta.

A segunda é sobre processo.

E foi justamente aí que nosso trabalho começou a mudar também.

Deixamos de olhar apenas para treinamento e começamos a construir estruturas para que o BIM realmente funcionasse dentro das empresas.

Templates.

Bibliotecas.

Famílias.

Showrooms.

Parâmetros.

Nomenclaturas.

View Templates.

Estratégias de modelagem.

Checklists.

LOIN.

Procedimentos.

Pacotes de entrega.

Gestão da informação.

Gestão BIM.

Help Desk.

E, principalmente, começamos a entender que não bastava entregar tudo isso.

Era preciso criar método.


Acho que essa foi uma das maiores viradas da minha trajetória com BIM.

Por muito tempo falamos:

“BIM não é só software.”

Hoje parece uma frase óbvia.

Mas viver essa mudança dentro das empresas mostrou para mim o que ela realmente significa.

BIM envolve tecnologia, claro.

Mas envolve também pessoas.

Responsabilidades.

Informação.

Padrões.

Decisões.

Processos.

Gestão.

E uma implementação não acontece simplesmente porque uma empresa decidiu “usar BIM”.

Ela acontece quando conseguimos transformar tudo isso em uma forma de trabalhar que faça sentido para aquela empresa.

Por isso também nunca acreditei muito em implementação BIM como uma receita pronta.

Cada empresa tem sua história.

Seus projetos.

Sua equipe.

Seus problemas.

Sua maturidade.

E sua maneira de trabalhar.

Antes de decidir a tecnologia, precisamos entender o processo.


E agora... chegou a IA.

Tenho achado curioso viver esse momento.

Porque algumas perguntas me lembram muito aquelas do início da minha trajetória.

Todos os dias algum cliente pergunta:

“Vocês já estão usando IA?”

“Qual IA funciona com Revit?”

“Já dá para modelar com IA?”

“Isso vai substituir parte do trabalho que fazemos hoje?”

Eu também estou tentando entender.

E não sei exatamente como será o futuro.

Mas tenho uma impressão...

estamos novamente muito encantados com a tecnologia.

E talvez estejamos esquecendo de fazer algumas perguntas anteriores.

Imagine que amanhã uma IA consiga realmente receber o comando:

“Modele este pavimento.”

Ótimo.

Mas...

Qual template ela deve usar?

Qual família?

Quais parâmetros?

Qual nomenclatura?

Qual informação precisa existir nesta etapa?

Qual padrão gráfico?

Quais vistas precisam ser criadas?

Qual LOIN?

Qual checklist?

E como ela vai saber se o que produziu está certo?

...

Olho para essas perguntas e acho interessante perceber que muitas das respostas estão justamente naquilo que passamos quase 20 anos tentando organizar no BIM.


Talvez estejamos começando um novo ciclo.

Primeiro aprendemos a ferramenta.

Depois percebemos que precisávamos estruturar processos.

Depois começamos a falar cada vez mais sobre gestão da informação.

E agora talvez precisemos transformar todo esse conhecimento em algo que também possa ser compreendido e utilizado por máquinas.

Isso me faz olhar de outra maneira, inclusive, para tudo o que construímos ao longo desses anos na Construtora Virtual.

Um template não é apenas um arquivo.

Uma biblioteca não é apenas um conjunto de famílias.

Um checklist não é apenas uma lista.

Um padrão não é apenas burocracia.

Tudo isso carrega conhecimento.

Decisões tomadas ao longo de anos.

Critérios.

Experiência.

Erros que não queremos repetir.

Formas de trabalhar que aprendemos a organizar.

Talvez esse acervo de conhecimento seja ainda mais importante daqui para frente.


Depois de quase 20 anos trabalhando com BIM, tenho mais perguntas hoje do que tinha quando comecei.

E talvez seja exatamente por isso que resolvi criar esta newsletter.

Quero usar este espaço para falar de BIM...

mas não só de BIM.

Quero falar sobre gestão, processos, informação, implementação, tecnologia, automação, IA...

e sobre o que estamos aprendendo trabalhando todos os dias com empresas que precisam transformar tudo isso em prática.

Sem a obrigação de prever qual será a próxima grande tecnologia.

E sem fingir que sabemos exatamente como será o futuro.

Quero olhar principalmente para aquilo que, apesar de toda a evolução tecnológica, continua fazendo diferença.

Porque nesses quase 20 anos vi ferramentas mudarem.

Vi o Revit mudar.

Vi o BIM mudar.

Vi nossa própria forma de trabalhar mudar.

E agora estou vendo a IA começar a mudar novamente as perguntas.

Mas uma coisa continua fazendo cada vez mais sentido para mim:

antes da tecnologia vem o método.

E acho que é justamente por aí que quero começar esta conversa.

Flávia Maritan
Arquiteta | Sócia da Construtora Virtual

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