Cuidado com o “tudo do BIM”

 


Tem uma situação que se repete bastante quando começamos uma implementação BIM em uma construtora ou incorporadora.

A empresa quer BIM.

Mas não quer um pouco de BIM.

Quer o tudo do BIM.

...

Quer modelagem. Compatibilização. 4D. 5D. (Ds em desuso). Orçamento. Planejamento.

CDE. Realidade aumentada. Automação. Dashboards. Digital Twin. IA.

Quer integrar projeto, obra, orçamento, planejamento, operação...

De preferência, tudo agora.

E eu entendo.

Quando começamos a conhecer as possibilidades do BIM, é muito fácil olhar para tudo aquilo e pensar:

“Por que não fazemos tudo?”

A questão que tenho aprendido ao longo desses anos é outra:

porque talvez você ainda não precise de tudo.


Implementar BIM não é colecionar usos BIM.

Uma das primeiras coisas que tentamos entender quando começamos um trabalho de implementação é:

qual problema queremos resolver?

Parece uma pergunta simples.

Mas nem sempre é.

Às vezes a empresa chega querendo implementar BIM e, quando começamos a conversar, percebemos que existem questões muito anteriores.

Os projetos não têm um padrão claro de informação.

Os entregáveis não estão bem definidos.

Cada fornecedor trabalha de uma maneira.

Não existe uma nomenclatura única.

As responsabilidades não estão claras.

Os modelos chegam com informações diferentes.

Não sabemos exatamente o que precisamos receber em cada etapa.

E aí queremos colocar...

IA.

...

Talvez ainda não.


Existe uma diferença entre possibilidade e necessidade.

O BIM nos permite fazer muita coisa.

Esse é justamente um dos grandes potenciais da metodologia.

Mas o fato de conseguirmos fazer alguma coisa não significa que precisamos implementá-la agora.

E acho que esse é um dos erros mais comuns quando falamos de transformação digital.

Começamos pela ferramenta.

Depois procuramos um problema para ela resolver.

Na minha experiência, o caminho deveria ser quase o contrário.

Qual é o problema?

O que precisamos melhorar?

Qual informação precisamos controlar?

Qual decisão queremos tomar melhor?

Onde estamos perdendo tempo?

Onde estão os erros?

O que hoje depende demais de uma pessoa?

O que precisa ser padronizado?

A partir daí, começamos a definir qual uso BIM faz sentido.


Porque maturidade BIM não acontece de uma vez.

Ela é construída.

Um processo de cada vez.

Um padrão de cada vez.

Um uso de cada vez.

E, principalmente...

uma necessidade de cada vez.

Tem empresa que precisa começar organizando requisitos de projeto.

Outra precisa melhorar a coordenação.

Outra precisa estruturar seus modelos para orçamento.

Outra ainda está tentando garantir que todos os projetistas entreguem informações seguindo o mesmo padrão.

Todas podem estar trabalhando com BIM.

Só estão em momentos diferentes.

E está tudo bem.

O problema começa quando usamos como referência a empresa que já está há dez anos nesse processo e tentamos implantar amanhã tudo aquilo que ela levou anos para construir.


Às vezes, menos BIM gera mais resultado.

Essa frase pode parecer estranha vindo de alguém que trabalha há quase 20 anos com BIM.

Mas acredito muito nisso.

Eu prefiro ver uma empresa usando três processos BIM que realmente funcionam...

do que quinze usos BIM que existem apenas em um BEP bonito.

Porque implementação não termina quando definimos o processo.

Ela termina — se é que termina — quando aquilo passa a fazer parte da rotina.

Quando as pessoas entendem.

Quando utilizam.

Quando conseguem repetir.

Quando conseguem medir.

Quando conseguem melhorar.

E depois...

avançar.


O problema do “tudo” é que ele também esconde prioridades.

Se tudo é importante...

o que vem primeiro?

Essa talvez seja uma das decisões mais importantes de uma implementação.

Não apenas definir onde queremos chegar, mas construir uma sequência possível para chegar lá.

Primeiro organizar.

Depois padronizar.

Depois consolidar.

Depois integrar.

Depois automatizar.

E, quando fizer sentido, avançar para usos mais sofisticados.

Não porque exista uma ordem universal para BIM.

Não existe.

Mas porque cada nova camada precisa encontrar uma base minimamente preparada para recebê-la.


E agora temos um novo “tudo”: a IA.

Isso tem aparecido cada vez mais.

Empresas que ainda estão estruturando seus processos BIM já querem saber como colocar IA em tudo.

E novamente...

eu entendo.

Eu também estou fascinada pelas possibilidades.

Mas tenho feito cada vez mais uma pergunta:

o que exatamente queremos que a IA faça?

Porque colocar IA sobre um processo que ainda não está claro não necessariamente vai resolver o problema.

Pode apenas fazer aquele processo ruim acontecer mais rápido.

É a mesma discussão que tivemos com automação.

E, antes dela, com o próprio BIM.

A tecnologia muda.

A pergunta continua muito parecida.


Depois de muitos anos trabalhando com implementação BIM, talvez uma das coisas que mais tenha mudado na minha forma de pensar seja justamente esta:

eu tenho cada vez menos pressa de implementar tudo.

Prefiro entender primeiro.

Priorizar.

Criar uma base.

Testar.

Aprender.

Ajustar.

E então avançar.

Porque maturidade BIM não é medida pela quantidade de tecnologias que uma empresa consegue colocar em uma apresentação.

É percebida quando os processos começam a funcionar sem depender de esforço extraordinário para funcionar.

Então, quando uma empresa me diz:

“Queremos tudo do BIM.”

Minha vontade é responder:

Ótimo.

Podemos chegar lá.

...

Mas o que precisamos resolver primeiro?

Talvez uma boa implementação BIM comece exatamente nessa pergunta.

Flávia Maritan
Arquiteta | Sócia da Construtora Virtual

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